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O PORTO DE OITOCENTOS

O PORTO DE OITOCENTOS

Abril 22, 2019

Visita ao Porto (2)

«Os nossos primeiros monumentos, os primeiros monumentos de toda a Cristandade - costumam ser os templos; esboçarei pois o que há de notável a tal respeito na cidade do Porto - não gastarei muito tempo, porque há pouco a admirar.

 

Quis começar pela Sé - esse histórico solio dos bispos semi-reis. Ainda outra vez me lembrarei do Sr. Garret, e pedi que me guiassem à Catedral pelo arco de Santana; fizeram-me a vontade, dirigiram-me por um enlameado beco, - disseram-se - Era aqui... mas o arco já não o encontrei, havia-lhe passado por cima o nível da civilização. - Vi, porém, aquelas duas janelinhas de que fala o poeta - pareceu-me que distinguia a Aninhas e a Gertrudinhas, atando o fio da conversação no ponto em que o autor as abandonara. Poder do Génio, que dá vida a uma sombra! O que eu senti naquele lugar - poucos o compreendem... nem isso é preciso.

 

Colocada em um pequeno largo, cercada de becos, mal se pode gozar a sua perspectiva, a tosca mas proveta fachada do castelo episcopal. O interior está bastante danificado, há porém aí dois objetos dignos de notar-se. A capela de prata, obra custosa pela matéria e mais ainda pelo lavor - cujo fundador ninguém me soube indicar, mas que me pareceu não ser anterior ao século XVI - e um quadro da Virgem, que os cónegos me asseguraram ser original de Rafael: - não suponho tal, com quanto o rosto da Senhora tenha desses divinos traços que caracterizam as Madônas daquele sublime pintor. É talvez apenas uma cópia. Também disseram que o duque de Wellington oferecera por ele dois contos de réis; e que mais recentemente o duque de Palmela, oferecera o mesmo preço e uma cópia para ficar em seu lugar. Não faço mais do que repetir o que me contaram diante de testemunhas.

 

Ao lado da catedral está o Paço do Bispo - gigantesco edifício incompleto, e arruinado pelas bombas do tempo do cerco: não entraremos lá, limitar-nos-emos a ver a escada. Oh! a escada do Bispo é o orgulho dos portuenses. Apenas chegardes à cidade Eterna, encontrareis cem pessoas a perguntar-vos - Já foi ver a escada do Bispo? - E é necessário ir lá depressa, para salvar os ouvidos de repetidas e minuciosas descrições. Que me desculpem desta ferroada os senhores portuenses - bastante mel lhes tenho dado pelos lábios - e, o que é mais, simpatizo com eles deveras. Ora a escada é grande, espaçosa, clara, e coberta por um tecto elevado e elegante: foi renovada pelo actual bispo D. Jerónimo, - mas não tem nada que encante: ao contrário no vestíbulo tem quatro objetos colocados simetricamente que desencantam....

 

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... pedi que me guiassem à Catedral pelo arco de Santana; fizeram-me a vontade, dirigiram-me por um enlameado beco, - disseram-se - Era aqui... mas o arco já não o encontrei ...

 

Continuemos a revista aos templos. O de S. Francisco contíguo ao convento incendiado pelos miguelistas, passa por ser um dos melhores da cidade, - mas não o pude ver, estava fechado; o exterior posto que irregular, fixa a atenção por alguns momentos. O da Trindade está em reparos, é porém coroado por uma torre piramidal, que - depois da torre dos Clérigos - e o vulto que mais sobressai no horizonte do Porto. Cedofeita e S. Bento, também estão de posse de uma grande nomeada, - porém eu é que não tenho tempo nem paciência para entrar em miudezas. Espaçosos são também S. Ildefonso, e S. António; visitado por antigo o S. Pedro de Miragaia, - nada todavia prendeu nesses lugares santos a atenção do viajante - a não ser a lembrança de Deus. No convento de S. Bento das Freiras em que eu me demorei algumas horas, porque casualmente entrei ali na ocasião em que se tratava da eleição da Abadessa. Foi uma cena nova para mim: o beija-mão dado pela Eleita, as saudações e vivas da comunidade e das leigas - os eclesiásticos assistindo ao processo eleitoral - tudo aquilo semelhava tanto um quadro de política, que - confesso - pareceu-me uma profanação na Casa do Senhor!... Loucura minha!

 

Quanto à arquitetura, nenhuma frontaria me pareceu tão bela, como a do convento do Carmo. Concluiremos esta resenha na Lapa. Ahi está o coração de D. Pedro, - posto que o sarcófago não seja condigno ao objeto que encerra, - é impossível levantar dele os olhos! Corações como o desse homem - verdadeiramente Grande - não pulsam em muitos peitos!... Pudesse ele volver novamente à vida - e ainda seriamos salvos!...

 

Junto à igreja da Lapa, há o cemitério particular da Irmandade, que também serve de jazigo a homens célebres. Entre avultado número de monumentos funerários, achei três lápides que recordam nomes distintos em letras, armas, e virtudes - José Ferreira Borges, coronel Pacheco, e o bispo D. Manuel de Santa Inês. Há na cidade um grande cemitério público, que só tinha quando eu o visitei cinco monumentos; porém é ornado de uma bonita capela, um tanque e árvores adequadas. O povo tantas vezes poeta em sua linguagem singela, chama-lhe geralmente - Campo de repoiso!

 

Poucas cidades possuem como o Porto, tantos hospícios e em tão perfeito estado. O hospital da Misericórdia, que está em construção, se chegasse a concluir-se seria suficiente para as três províncias do norte; - o fora bastante para asilo de todos os feridos da batalha de Waterloo, ou de Moskwa.

 

No largo de S. Lázaro (aonde há um jardim público) está o edifício da Biblioteca, galeria de pinturas, e museu. A Biblioteca, está perfeitamente colocada, tem extensões salões, muito claros e arejados, e em muita boa ordem. Disseram-me que ao Sr. Herculano se deve em grande parte a organização daquele estabelecimento. Outra recordação de D. Pedro se encontra no Museu - é o óculo e o chapéu de que usou durante o cerco.

 

O campo de Santo Ovídio, chamado hoje da Regeneração, é uma bela praça assombrada de arvoredo, aonde se vê a fachada de um imenso quartel de tropa, que fecha uma quadra de quase igual tamanho; - fica-lhe perto o Passeio da Lapa, donde se goza uma bela vista - principalmente para a parte do oceano; - e mais acima um telégrafo - excelente ponto de observação.

 

Há na cidade duas assembleias de recreio - a Portuense - e a Filarmónica. E uma comercial. O corpo mercantil do Porto é perfeitamente unido, e por isso mesmo muito respeitado; tem-se dedicado a mais sérios trabalhos do que o de Lisboa. A última prova desta asserção e bem saliente, é o majestoso edifício da praça nova do comércio que à sua custa está levantando.

 

Há também no Porto um Banco Comercial, e Caixas Filiais do de Lisboa - ou seja de Portugal, - e da União Comercial.

 

Agora o que é espantoso, é que em uma cidade de tanto tráfego mercantil como o Porto - esteja a alfândega colocada em armazéns particulares... mas isso não é culpa dos comerciantes, é do Governo.

 

- O que me resta ver na cidade?

- O largo da Cordoaria - a Politécnica - a Relação.

- Vamos lá... oh! cá estamos, não é difícil adivinhar que chegamos à Cordoaria, vendo tantos cordoeiros a trabalhar em volta da praça.

 

O edifício da Escola Politécnica é grandioso, mas falta concluí-lo - como quasi tudo nosso.

 

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O hospital da Misericórdia, que está em construção, se chegasse a concluir-se seria suficiente para as três províncias do norte...

 

E a Relação... sempre ouvi dizer que é um palácio magnífico. - Quê! pois é aquela massa de pedras enegrecidas meio oculta por esse barracão de madeira? Acerquemo-nos. Com efeito estava própria para uma jaula de feras, a tal Cadeia da Relação, - mas para detenção de homens, e de homens não condenados... é horrível. Creio que morreria se me obrigassem a transpor os umbrais dessa porta... e todavia, homens colocados muito acima de mim na escala do mundo, aí jazeram encerrados meses, anos, - alguns, só daí saíram para o patíbulo! O edifício é triangular como uma forca - talvez fosse um pensamento emblemático do arquiteto, ou de quem lhe encomendou a obra. Fujamos deste lugar de ominosa recordação.

 

- Vamos à Foz?

- Hoje não - amanhã, que é Domingo - e adeus. Enquanto eu tomo alento descansado, por tornar ao trabalho mais folgado.»

 

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«Alvoreceu o tal domingo destinado para o passeio à Foz, mas escuro e chuvoso; assim mesmo não se desperdiçou, porque o tempo que me restava era pouco, e estava detalhado para outras visitas. Metemo-nos - eu e o meu obsequioso amigo C. Junior - em uma carruagem, e tratamos para a Foz. Há dous géneros de carruagens de aluguer no Porto; umas - com a que nos conduziu - convexas pela dianteira, e côncavas pela traseira, com assentos para quatro pessoas mas podendo só acomodar duas à vontade; são tiradas por dous seguros cavalos; outras igualmente côncavas por trás e por diante, e puxadas por uma ou mais juntas de bois. Tanto estas como aquelas, sobem e descem apertadas ladeiras, que parecem de impossível trânsito para um cavalo solto ou um boi.

 

Chegamos à Foz; tratamos de almoçar - na estalagem de um tal Silvestre, parece-me que foi. Pedimos bifes, trazem-nos carne de vaca presa a um sofrível osso: - saborosa estava ela, na verdade, mas não me parecia o que tínhamos exigido da arte culinária de mestre Silvestre. Fiz a minha observação em termos moderados - estava enganado, chamava-se àquilo bifes. Modifiquei pois as minhas ideias a tal respeito. Reguei o chamado bife com um copo de vinho do Porto - o melhor vinho do mundo inquestionavelmente, digam o que quiserem os cegos adoradores de Champagne, Borgonha, Xerez, e até de Madeira... estão em minoria; como ia dizendo tomei o meu copete, e a tal respeito registrarei aqui um sublime pensamento meu: quem bebe vinho ao jantar, deve igualmente chuchar a sua pinga ao almoço, porque o estômago não conhece essa diferença de horas de comida, e tanto carece em uma como em outra ocasião - ou nunca carece - do sumo da cepa. Isto assente - vamos à praia ver banhar as senhoritas.

 

Infelizmente poucas encontrei entre os penedos da Foz, por causa da chuva; o que não me pareceu razoável, pois que quem ia molhar-se ao mar, pouco se lhe devia dar de ser também orvalhado em terra. Esta minha mania de fazer reflexões a tudo, talvez comece a incomodar os leitores, se é que já os não desgosta há muito. Sem medo ao mau tempo, subimos até ao farol da Luz, dali descortinamos no oceâno vários navios que demandavam a costa, entre eles o vapor Falcão. A barra porém estava quasi tomada, o Douro crescia com a chuva que se despenhava das montanhas, e o mar rebentava furioso sobre o Cabedelo e por entre os penedos. Assim mesmo o vapor entrou; os navios de vela não, - fora temeridade. Era majestoso esse espetáculo!

 

O meu companheiro de passeio, a quem eu incomodava continuamente com perguntas, algumas delas talvez desarrasoadas, contou-me na volta para a praia uma história recente, que eu apreciei no devido valor, porque já comigo se passaram idênticos acontecimentos. Era uma escuna inglesa que ancorara fora da barra, que perdera sucessivamente todos os seus ferros, e a quem já apenas segurava um ancorete; - não podia levar-se-lhes socorro, e os coitados esperavam a sua última hora, fazendo-se pedaços contra os cachopos. O meu amigo disse-me que viu então prostradas por terra, de joelhos na praia, no limiar das portas e nos balcões das janelas, muitos desses anjos consoladores a que na terra se chamam mulheres, implorando a clemência do céu para aqueles desgraçados que o mar pretendia arrojar de si, e a que a terra repulsaria igualmente! Os homens também mostravam comover-se, apesar de serem portugueses, e terem por consequência restrita obrigação de odiarem os ingleses - como diz o nosso distinto escritor, o sr. A. Herculano. Ai! houve um grito uníssono de Misericórdia!... Era que rebentara a frágil amarra! - Depois seguiu-se um momento de silêncio mas de um respirar apressado, - sucedeu-lhe o ténue ruído de palavras incompletas - destacadas... arfar de corações e soluços entrecortados... porém ao cabo um grito de alegria - de vitória? O capitão fora corajoso - a mal extremo, remédio extremo! - Perdido aquele último recurso, largou o velacho, aproou à barra, - e Deus permitiu que por sobre novelões de vagas irritadas, ora roçando o abismo com a quilha, ora tocando nas pontas dos penhascos - o mesquinho baixel entrasse a salvamento no Douro. E as mulheres, de joelhos ainda, agradeciam com lágrimas de alegria ao Senhor Deus dos aflitos o milagre que obrara, e criam com fé viva que o Ser Supremo escutara comovido as suas vozes! Ai, pobre de mim, que me meti a romântico!

 

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Chegamos à Foz; tratamos de almoçar...

 

Voltemos ao estilo antigo, que não é pequeno defeito uma tal falta de unidade. E aqui lembro eu às minhas senhoras portuenses o que contou um dos redactores da Carta, não há muito tempo, mas que por ventura já terão olvidado. Foi o caso; uma lisbonense (faço ideia que seria minha patrícia) escreveu àquele redator, participando-lhe que estava tecendo um cordão do seu próprio cabelo (não diz se loiro, negro ou castanho) para lho oferecer como prémio de dizer tanto bem das senhoras na sua crónica semanal. O redator promete retribuir com um soneto. Ora eu não me quero explicar mais... porém lembro que também tenho meu tanto ou quanto de poeta; e se alguma senhora portuense se parecer com a minha compatriota, não hei-de ficar atrás do meu colega.

 

E já que falei de senhoras, cumpre-me declarar aqui o muito que me penhoraram algumas - ou quasi todas - as portuenses, a quem tive o gosto de ser apresentado. Naquele mesmo sítio da Foz, estive - só por momentos... ainda mal! - em muito agradável companhia - em conversação deleitável... não dessas banalidades que por aí se usam. E na cidade - seria bastante para tornar deliciosa a minha residência ali, a sociedade das exmas. sras. de C. - tão amáveis, quanto instruídas. A respeito do trajo, notei que a mantilha, costume meio espanhol, cai caindo em descrédito como o capote e lenço em Lisboa - não tanto como as notas do Banco! - Um e outro uso vão desaparecendo da toilete da classe média. As mulheres da última classe trabalham tanto ou mais do que os homens - não se dedicam a pedir esmola como na Capital; . de tamancos ou descalças cruzam a cidade em todas as direções; vão á fonte buscar água ou carregam qualquer fardo à cabeça; enfim é uma raça laboriosa como os homens de todo o Minho.

 

Voltemos à cidade, que são horas de jantar; não devemos fazer esperar o nosso amigo G*** e a sua interessante família. Rasteando o Douro pelos sítios da Cantareira, Massarelos e Miragaia, viemos recordar o sublime painel que devem apresentar estes lugares, por ocasião de uma cheia; quando o rio transborda do seu leito e alaga as praias de uma e outra margem; que as catraias servem para comunicar de uma para outra casa, e que os navios descançam a quilha nos cais! Como César que chegou, viu e venceu; nós chegamos, comemos, e partimos para o teatro.

 

O largo da Batalha é um dos belos sítios da cidade: está aí o edifício da Casa Pia, ocupado pelas repartições militares, e não sei se por alguma civil também; e separado por uma estreita rua do teatro de S. João. Este, menor, mas pelo mesmo risco do S. Carlos de Lisboa; vê-se e ouve-se ali - o que não acontece em o nosso rico salão do Rossio, e está pintado e doirado com gosto. O exterior é que é ridículo - e nem ao menos tem um vestíbulo. Representava-se nessa noite um drama, cujo título por si só já era repulsante; mas a execução foi muito além! - Externamente me lembrei de um João Baptista, amante dos gelos polares! Mas também não olvidarei os deliciosos momentos que passei em um camarote analisando a peça e os atores, e ouvindo chistosas reflexões de uma senhora espirituosa - encantadora! Saímos do teatro - é necessário dormir algumas horas. Adeus, caríssimos leitores - asta mañana

 

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Originalmente publicado na A Porta Nobre (no blogspot) em 16.06.2016 e 03.07.2016

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