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O PORTO DE OITOCENTOS

O PORTO DE OITOCENTOS

Abril 15, 2019

Visita ao Porto (1)

Num jornal setembrista de vida efémera denominado A Columna, com tipografia na desaparecida Rua dos Lavadouros, encontrei este interessante escrito da autoria de Francisco Maria Bordalo. O texto foi publicado entre 29 de novembro e 2 de dezembro de 1847. Com esta singela descrição de um lisboeta que pela primeira vez visita a nossa cidade, pretendo dar um pequeno contributo/acrescento aos já vários relatos mais ou menos extensos deste estilo e mais divulgados. Não sigo a divisão que o jornal inicialmente fez, pelas mesmas razões que poderão encontrar no primeiro parágrafo desta publicação de A Porta Nobre.

 

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Francisco Maria Bordalo, escritor e Capitão-tenente da Armada, nasceu em Lisboa em 05.05.1821 e na mesma cidade morreu em 26.05.1861.

 

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«Vou ao Porto - decididamente! Parece mal - ser português, ter mais de vinte e cinco anos, - e não haver visitado a segunda cidade do reino; não ter cruzado o Douro, o pátrio rio de tantos dos nossos poetas; não ter visto - ao menos de longe - o aspecto carrancudo das montanhas do Minho, contrastando singularmente com seus campos sempre esmaltados de verde. Pois vou!

 

Embarco-me no vapor, deixo o meu pátrio Tejo, - vejo sumir-se a Pena, bela coroa da romântica Sintra; à noite enxergo o farol das Berlengas, confundindo a sua luz com a das estrelas; depois durmo, que é uma excelente maneira de encurtar as viagens; e ao romper do dia diviso a Foz, a sua povoação, o seu castelo, e lá por entre montanhas a erguer-se um como cipreste gigante.

- Que ponto é aquele? 

- É a torre dos Clérigos.

- Pois é. Parecia-me um cipreste. Seria um pensamento do arquiteto? Talvez. - Era por ventura um romântico de outro século. Oh! Como eu desejo ver de perto a tal torre.

 

E foi nesse momento de entusiasmo que resolvi escrever as minhas impressões de viagem - como por aí se diz. Bem sei que muitos historiadores, geógrafos, viajantes e touristas, tem dito quanto havia a dizer da cidade Eterna, do rio que lhe banha os pés, dos campos e montanhas que a cercam; - não contarei coisa nova: mas deixarei por isso de ser lido? Não; é que aí estão os artigos de fundo dos jornais a dizer quase sempre ao mesmo, e todavia são muitas vezes recebidos com entusiasmo. - É conforme a disposição de que está o leitor. Talvez que estes meus apontamentos ou apontuados encham as medidas a alguém. E agora, que remédio - prometi escrever - comecei a cumprir a promessa - é concluir. Saia o que sair! Deus queira, ao menos, que esta obrinha não alcance tantas antipatias da parte dos portuenses, como o folhetim intitulado O Porto, que estampou na Revolução de Setembro, o meu amigo e compatriota alfacinha - talentoso mancebo - o Sr. Lopes de MendonçaTambém o homem não estava em si quando escreveu: exagerou a pintura, tanto nos toques do sublime como nos laivos do ridículo... nem perdoou às senhoras!... Pois a essas desde já declaro que pretendo eu agradar; todavia farei a diligência por não mentir mesmo em seu abono - confesso, porém, que tenho medo de mim - sou muito frágil!...

 

Silêncio! - eio!... caluda, que vamos a investir com a barra - e não é ela para graças. O Joaquim Luís e o Turíbio gritam - a bombordo - a estibordo. - E o Cabedelo está aqui agarrado a proa do barco, e o mar rebenta com fúria - parece um lençol de escuma. Bravo! Passamos adiante - mas cá está a maldita Cruz de ferro - Deus me perdoe a heresia!... Heresia, não, porque a chamada Cruz de ferro não é mais do que uma torrezinha de pedra, que teve em outro tempo o sinal da redenção, dizem. E com esta conversa safamos de todos os baixos, e eis-nos aqui a largar o ferro em frente a Massarelos.

 

Namorei-me de uma casa na margem do sul do rio - disseram-me pertencer ao Sr. Antero (que não tive a honra de conhecer) - bonita! isolada à beira do rio, assombrada de arvoredo, - é capaz de fazer poetas. Por mim declaro que se ali passasse um mês, compunha romance de trinta volumes, coisa a desbancar Sue e Dumas, - muito maior que o Judeu e que o Monte Cristo.

 

As construções navais que aparecem na outra margem, começam a dar ideia da vida que anima o Porto: uma corveta de guerra, várias embarcações mercantes, de belos cascos... de elegante mastreação... desenho, obra e madeiras portuguesas - são objectos que devem notar-se... E aqui podia eu fazer largo discurso sobre a decadência da nossa Marinha - falar em Vasco da Gama e Pero de Alenquer e Pero Nunes e.... nada, isso já está muito repisado, e eu trato de escrever uma obra inteiramente original, ou para me servir de uma expressão moderna - não quero vazar em nenhum molde o metal da minha eloquência. Agora sim, que ninguém me entendeu.

 

Vamos, largo do Ouro [o sítio dos estaleiros] - rema avante; aguenta contra a corrente, que quero ir desembarcar à RibeiraGosto mais do Douro, do que do meu pátrio Tejo. Não tem a majestade deste - é verdade - não pode acomodar a um cantinho todas as naus da Inglaterra, da França, da Rússia e da Turquia - é o mesmo; quem quer ver mar largo - bem largo - vai viajar no oceano - e eu que já o estou farto de o ver! - O Douro é estreito - bem sei - mas por isso é que eu gosto dele; tortuoso, assim é que me agrada, apraz-me o subir a qualquer eminência das suas ribas, e ver como se enrosca por entre as montanhas que lhe talharam o leito; como esbraveja às vezes contra essas margens alcantiladas... Tenho pena de não ter nascido à beira do Douro! Que caras de vender saúde tem os barqueiros - comparai-os com os enfezados do Cais do Sodré e da Ribeira Nova. Pois as mulheres de Valongo e Avintes, com aqueles elegantes tamanquinhos - sim senhor elegantes... - Ai que toquei na tecla - isto é tentação - abre nuntio!

 

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«... perguntei aonde era o castelo de Gaia, e mostraram-me na riba oposta umas ruínas ...»

 (pormenor de uma gravura de 1846)

 

A minha catraia vai passando em frente de Miragaia. Lembrou-me o romance do Sr. Garret - eu tenho queda para a poesia! - perguntei aonde era o castelo de Gaia, e mostraram-me na riba oposta umas ruínas - olhei com entusiasmo para elas! Depois espraiando de novo a vista pela extensão de Miragaia, dizia comigo mesmo: - Por aqui devia de ir passando a cavalgada de moiros, quando a bela Gaia mirou pela última vez ao seu Real amante. - E fiquei sério ao contemplar alternadamente as duas margens do rio, recordando-me também do Espetro, belo poema-romance do Sr. José Maria da Costa e Silva.

 

Não tardei porém em ser distraído. Mostraram-me a Serra do Pilar, que parecia fechar uma pequena baía, olhando da posição em que eu estava; porque o Douro torce-se aqui e acolá, como um avaro que procura esconder os seus tesouros. As ideias mudaram logo de norte; veio-me à lembrança o cerco, aquela memorável defesa; - e D. Pedro, e o General Torres, e os Polacos da Serra passaram em continência diante da minha imaginação; - porque tem isso consigo os poetas e mesmo os prosadores, vêm ante si cada vez que querem os grandes homens de todos os tempos; dos pequenos não fazem eles caso. Não fatigarei aqui o leitor com reflexões politicas morais e filosóficas; deixo isso a quem de direito pertence.

 

Já cá vou costeando o lugar de Cima de Muro; - lá está a ponte pênsil... deixa-la, outro dia a verei que tenho tempo. Estou farto de teimar na catraia contra a corrente do rio - desembarquemos aqui, ao pé da Porta Nobre. Porta Nobre! diz o letreiro que coroa um arco que dá entrada para a mais imunda rua; deverá de ser assim aquela aonde o Dante leu o imortal verso: Lasciate ogni speranza o voi ché notrateAntes porém de saltar em terra, façamos uma observação a respeito das catraias. Se tivessem a proa armada de um esporão, arremedariam sofrivelmente as gondolas de Veneza. Ainda assim as casinholas que ocupam o centro do barco são pintadas de cores variegas e não de negro - como as de Veneza, que parecem recordar ainda a polícia da Inquisição do Estado - de ominosa memória. Atraca - Aqui está uma de seis. - Passe muito bem - Viva - Estou na cidade do Porto!

 

Pois amanhã falaremos, que hoje é noite; vou procurar poisada.

 

Lancemos ainda um olhar ao Douro que está daguerreotipando as estrelas, e os muitos lampiões da cidade e de Vila Nova. - Parece que estamos em um lago da Suíça, não se enxerga nenhuma saída do rio. A bela iluminação das suas ribas fez escrever a um parvo de um estrangeiro que por ali andou, que eram tão maus os mareantes do Douro, que tinham de acender-se aquelas luzes para lhe servirem de faróis. E assim escrevem das nossas cousas todos eles! Aqui faço ponto, e estou no gosto do modernismo: não dizer nada ao primeiro capítulo para aguçar a curiosidade do leitor. Passe este como introdução, posto que tal título lhe não pusesse no cabeçalho - que no mesmo caso estão certas as leis que dizem - valerá como carta passada pela Chancelaria, posto que por ela não há-de passar.»

 

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«Eis-me aqui instalado na Rua do Almada. Começarei por notar uma singularidade da minha habitação. Alguém dirá que me estou pegando, como um cavalo manhoso, diante de qualquer ninharia; em vez de romper galhardamente como um brioso ginete, lançando miradas sobranceiras à cidade que percorre. Eu digo que quem assim falar, não tem razão - e provo. A casa de que vou tratar num relance, pode daqui a duzentos anos servir a um romancista (dos que então houver - que tais serão eles?) para teatro de uma associação eleitoral, clube diretor de uma bernarda, ou outra qualquer cena dos nossos dias, - posto que tais brincos se não tenham feito nesta; o que não impede que os futuros arqueólogos façam como os atuais - que nós por aí conhecemos a inventar patranhas, e a coloca-las conscientemente nos lugares históricos. O caso é que eu já ia fugindo de casa.

 

Pois bem, saberão os senhores e senhoras (isto é obra para ambos os sexos) que a casa onde me hospedei, e aonde fui tratado com o mais desvelado carinho pelos meus amigos os irmãos C. M. - tem apenas duas janelas de frente em cada pavimento, mas conta 250 vidros só no andar inferior. - Agora, pergunto eu - era isto ou não era uma circunstância digna de ser mencionada por um viajante? Não sou eu dos mais minucioso: lembra-me muito bem que A. Dumas na sua viagem em Sinay, menciona com muito espanto um convite que lhe fizeram ao sair do banho, posto que nada tenha de raro, e que no-lo façam todos os dias, tanto no Rossio de Lisboa, como na Praça Nova do Porto. Estava em um céu aberto naquela casa da Rua do Almada. - Cria-me em um viveiro de canários, ou em uma estufa - salvo a temperatura: - isto quanto às vidraças, que em tudo mais era como as outras. Ora pois, já viram a singularidade da casa; agora tenham a bondade de acompanhar-me, que começo a minha execução. Nous partons!

 

Desçamos à Praça Nova, ou mais modernamente - praça de D. Pedro. Eis-nos aqui na parte mais regular da cidade. As duas calçadas que partem deste lugar em direções opostas - a de Santo António e a dos Clérigos - são espaçosas, e orladas de muitos bons prédios: a primeira coroada pela bela paróquia de Santo Ildefonso; a segunda pela igreja e Torre dos Clérigos (que amizade com que eu fiquei a esta torre!) - A praça é quadrada; cercada de gradarias e assentos de ferro, assombrada de arvoredo em roda, e ornada com o palacete da Câmara Municipal; um chafariz; e o único café e bilhar decente do Porto, único cabeleireiro, e armazém de modas - tudo propriedade de Mr. GuichardHei-de visitar todos esses edifícios - igreja, torre, municipalidade e botequim... mas é necessário começar por um deles. Qual há-de ser?

 

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«O palacete é pintado de azul; a gradaria das janelas doirada»

 

A torre dos Clérigos - isso estava claro. Upa - galga arriba - que a ladeira é íngreme. Esta Calçada dos Clérigos fez-me recordar o préstito fúnebre, que ela tantas vezes presenciou, quando a Alçada transferia algum desgraçado das cadeias da Relação para o patíbulo da Praça Nova! Mas isso já lá vai - o que passou, passou; - hoje queremos esquecimento total das antigas injúrias. Os supliciados dormem há muito o seu sono eterno. Porém vivem ainda para não se olvidar, os que acompanharam alguns ao cadafalso. Um visitei eu - não havia de visitar! - Se ele é o nosso Figaro - o mais engraçado escritor em prosa e verso que esta terra tem produzido depois de Nicolau Tolentino... já se vê que falo do chistoso Barbeiro dos Pobres. Já velho e achacado, mas sempre folgazão, é o nosso homem - muito simpatizei com ele - e a quem não sucederá outro tanto? E eu divagando - como um deputado que ilude a matéria da ordem do dia. Nada - assim não vai bom. Prometo solenemente não ter mais desvios - ao menos até o fim deste capítulo.

 

Vamos a subir os 229 degraus que nos hão-de levar à última plataforma da torre dos Clérigos - ai que barulho! Pois não estão tocando os sinos!... O meu cicceroni - sineiro em chefe - manda dar tréguas aquele quebra-cabeças; e eis-me com os meus amigos C. M. gozando a vista daquele magnífico panorama. O Príncipe de Lichnwoski que viajou em Portugal em 1842 - e que de suas recordações nesta terra escreveu um livro - muito criticado por alguém, é verdade, - descreve, a meu ver, com bastante tino e elegância o painel natural que descortina o observador colocado no cimo desta torre: como não quero cingir-me à sua obra, nem à de nenhum outro autor (pois já disse que este opúsculo havia de ser inteiramente original) limitar-me-ei a dizer que me causou séria impressão o seguir com a vista a longa curva que ocupavam as linhas de defesa - notar aqui Monte Pedra, ali as Antas, acolá Bonfim, algures o Cubelo, e tantos outros lugares históricos, onde se obraram façanhas que começam a esquecer. Não me meto a descrever os horizontes que abrangia a vista, porque nada posso acrescentar ao que o diz o Príncipe alemão - apesar de muito censurado. Bem sei eu porquê!

 

Esboçarei o sineiro antes de deixar a torre. Era um homem de meia-idade, asqueroso no último ponto, e sem chiste nenhum para ciceroni - pelo demais parecia um bom homem - que são as palavras com que quase sempre termina uma descompostura a um cristão. Declarou ser sineiro depois de vinte e cinco anos. Perguntado se pegara em armas no tempo do cerco, respondeu que não, porém que subia continuamente à torre para tocar a rebate; e que durante o governo da Junta, exercera sempre o mesmo ofício, mas com menos trabalho. Perguntando mais pela altura da torre, declarou ter sessenta e três braças e meia desde a peanha da bolta até o chão (são palavras dele - que eu gosto de elucidar com textos as minhas obras) - e nada mais disse que mereça mencionar-se. A fachada da igreja dos Clérigos pobres - ou de S. Pedro de Alcântara - também prende a atenção como a torre, e como ela pertence a um género de arquitetura inclassificável.

 

Baixemos à calçada, e vamos à Câmara Municipal; é necessário não perder tempo. O palacete é pintado de azul; a gradaria das janelas doirada. No topo tem um guerreiro que sustenta as armas da cidade, e empunha uma lança. Entremos o portão; no vestíbulo há uma fonte que refresca aquele ambiente. - Subamos a escadaria, penetremos na sala das sessões - lá está a espada de D. Pedro adornando uma das paredes - ao lado do retrato de sua filha. Confesso que me comoveu aquela vista - aquele largo sabre de bainha de ferro que guiou à vitória os 7500 bravos de Arnósa!... Aí temos outra recordação intempestiva - esquecimento é que se quer.

 

Passamos à secretária, e ao arquivo da Municipalidade: o curioso de antiguidades tem aí com que se entreter. Mostrar-lhe-ão um livro em que estão pregadas algumas folhas de papel de algodão, meio dilaceradas porém cobertas de carateres antiquíssimos - é o primeiro auto de Vereação - século XIII ou XIV. O foral da cidade e o de vários lugares do distrito, adornados de belas iluminuras, aonde se conserva o brilhantismo das cores, fruto de uma arte perdida para nós; são obra do tempo de el-rei D. Manuel; e outras preciosidades. Antes de abandonar o palácio da Câmara vede a pequenina capela, e gostareis por certo dos seus adornos, posto que sejam de madeira.

 

Agora convido os leitores a virem comigo tomar café ao Guichard, um copo de marasquino e um charuto (este detestável, como são em geral os do nosso Contrato do Tavaco.) - Talvez vos incomode estar na mesma sala em que se cortam cabelos, - pois bem, passemos ao bilhar; mas, pelo amor de Deus, não desçais à casa do jogo do Loto [ou Quino como lá lhe chamam] morrereis asfixiado, e com a cabeça aturdida pelo bradar do marcador. Está tudo pago; saia-mos - Vamos a Santo Ildefonso.

 

Não. Tratarei deste templo quando me ocupar dos mais que adornam a cidade Eterna. Por agora descansemos, mesmo porque é preciso dar mate a este capítulo, que já se vai alargando muito.»

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Ora digam lá, meus caros leitores, se mesmo não se tratando de um Camilo Castelo Branco, não são interessantes os apontamentos que se colhem das descrições deste viajante? Prosseguiremos para a semana....

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Originalmente publicado na antiga casa de A Porta Nobre, no blogspot, em 04.06.2016 e 06.06.2016