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O PORTO DE OITOCENTOS

O PORTO DE OITOCENTOS

Abril 02, 2019

Um duelo que acabou num repasto e outro que não chegou a começar.

Eis uma curiosa notícia que saiu no Periódico dos Pobre no Porto, em 9 de Janeiro de 1845:

 

«Ontem às 8 da manhã teve lugar no sítio do reduto do Covelo, subúrbios desta cidade, um duelo a tiro de pistola entre os Srs. Marquês de Chardonnay e António Augusto de Passos Pimentel, alferes de infantaria 6 (…) o n.º de espectadores seria 20 pessoas, a maior parte estrangeiros, ingleses, franceses e espanhois.

Tendo chegado ao sítio apresado (sic) as duas seges em que iam os desafiados, cada um com o seu respectivo padrinho, e apeando-se os padrinhos, e à vista dos espectadores, mostrando os cartuchos com as balas, carregaram as pistolas, as entregaram aos seus afilhados, marcaram o terreno e a 20 passos de distância os contendores descarregaram!!

Nenhum ficou ferido; a pistola do Sr. Passos errou fogo, não batendo o fósforo, e ele não quis segundar, e tendo-se anteriormente convencionado que qualquer que fosse o resultado se dariam por satisfeitos, os contendores se abraçaram e tornaram para casa da mesma forma que tinham ido, dizendo o Sr. Chardonnay - ficamos amigos, sirva-nos isto de lição a ambos.

Pouco depois o Coronel Passos almoçava com a família Chardonnay em casa desta por convite desta senhora. – o motivo desta estranha pendência foram certas ocorrências desagradáveis que em uma das noites passadas tiveram lugar numa soirée, e na presença de algumas famílias respeitáveis que ali se achavam.

O Sr. Chardonnay aceitou o desafio que lhe propôs o sr, António Augusto, e lhe deixou a escolha de armas.»

 

Daqui, deste nosso imberbe recanto do século XXI, estas pequenas notícias permitem-nos abrir uma acanhada vidraça colorida para aquele século que se escreve com as mesmas letras mas numa ordem diferente. E embora não seja relevante para a história da cidade, o pitoresco dela torna-a, a meu ver, minimamente interessante.

 

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Igualmente refiro, também por curiosidade e porque o tema é o mesmo, que neste mesmo volume do periódico, em 23 de janeiro, surge um outro duelo em que foi desafiado nada mais nada menos do que o futuro Barão de Forrester. Eis a descrição daquele jornal:

 

«Duelo Malogrado

Consta-nos que no Sábado se malograra um duelo entre o Sr. José James Forrester, e o Sr.  Wright, ambos súbditos britânicos. Houve quem denunciasse as intenções dos dous cavalheiros: o cônsul procurou dissuadi-los, mas debalde; então foi informado o Sr. juiz da Policia Correcional do acontecimento que ia ter lugar, e este magistrado deu logo as providencias de forma, que às 7 horas da manhã foram ambos presos, no momento em que saíam de suas casas para o lugar do combate.

A questão dos vinhos do Douro parece haver sido a causa da desavença.»

(NOTA: O PPP informa que extraíra esta notícia do seu concorrente, A Coalisão).

 

Estaria esta "questão" relacionada com o trabalho apresentado de forma anónima por Joseph James Forrester no ano anterior, onde este criticava os que adulteravam o vinho? Fosse essa razão qual fosse, ainda bem que este duelo não teve lugar, pois dessa forma a sua vida poderia ter sido interrompida aos 36 anos de idade. Não sei se este acontecimento da vida de tão distinta personalidade será conhecido. Mas aqui fica registada, para que possa pelo menos figurar como uma nota de rodapé num possível trabalho biográfico sobre este distinto inglês que tanto amou o Douro e que por ironia do destino por ele foi morto.

 

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Publicado originalmente n' A Porta Nobre (blogspot) em 08.11.2013 e 11.06.2016 : a imagem é meramente ilustrativa.