Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O PORTO DE OITOCENTOS

O PORTO DE OITOCENTOS

Maio 03, 2019

Os bancos da Praça de D. Pedro (um apontamento)

Praça Nova era como se sabe o nome original da atual Praça da Liberdade (que infelizmente a geração mais moderna já vai enfiando no "saco" Aliados). Foi depois elevada à realeza tomando o nome de D. Pedro para finalmente obter o da Liberdade[1]. Nos anos imediatos à guerra civil, estava ela ainda bastante mal tratada com as cicatrizes do uso que lhe fez as tropas de D. Pedro durante o famoso Cerco, sendo pouco mais do que um grande rossio em macadam. Com o passar dos anos foi aformoseada e regulada, vindo a ganhar um lindo tapete de ladrilho preto e branco em 1882[2], formosas árvores que lhe davam sombra e claro: bancos! Sem eles não seria possível com completa serenidade, ao portuense de então, contemplar a beleza daquela praça cuja memória agora imaterial é perpetuada por tantas gravuras e imagens que aos nosso dias chegaram.

 

praça.png

i1 a Praça de D. Pedro na década de 80 do século XIX. Repare-se nos bancos de ferro que ali se encontram. Seriam confortáveis, dada a sua construção em ferro?

 

E é naqueles bancos que incide esta pequena, singela e até incompleta publicação (no final direi o porquê deste último adjetivo). Os primeiros foram ali colocados no ano de 1844, sendo totalmente construídos em ferro. Não eram portanto aqueles que se vêm na maioria das fotografias daquela linda praça; muito similares aos que ainda existem nos jardins do antigo Palácio de Cristal (com ripas de madeira presas a suportes metálicos).

 

P_20190429_215712.jpg

i2 Uma outra imagem da mesma época mostrando os bancos que se encontravam em frente ao palacete transfigurado nos Paços do Concelho.

 

No bonito dia de sábado passado visitei o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, da qual não tinha já memória viva no espírito da última vez que lá havia estado. Foi uma muito agradável visita, infelizmente reduzida praticamente apenas ao segundo andar, dado o primeiro não estar para já visitável... Mas no rés-do-chão, onde pouco havia para ver neste momento e após uma breve passagem de olho por gravuras oitocentistas que o milagre da internet tornou acessível a todos a toda a hora, reparei nuns pequenos bancos de jardim em ferro e de motivos simples. Uma luz se acendeu na minha ideia de imediato: os bancos da Praça Nova![4] Com efeito, aqueles bancos são (os?) sobreviventes dos que se encontravam na Praça de D. Pedro, dali retirados nos finais do século XIX !!!

 

P_20190427_160521.jpg

i3 e i4 caríssimos leitores, um banco da Praça de D. Pedro !!!

P_20190427_160527.jpg

 

A incompletude desta publicação advém tão só de não ter ainda encontrado - e por isso não poder aqui dizer - qual a obra onde colhi a informação da proveniência daqueles bancos que pude observar, cuja memória de imediato me saltou à ideia (fica a promessa, caros leitores,  de atualizar estas breves linhas assim que encontre esse registo). Ainda assim não quis deixar de partilhar o meu espanto e alegria neste blogue inteiramente dedicado ao século XIX portuense.

 

Para quem quiser ter uma experiência mais imersiva no imaginar da Praça de D. Pedro sem o barulho do trânsito automóvel ou mesmo do carro elétrico, ainda assim povoado com muitos outros como por exemplo o constante troc troc dos socos das mulheres, das cavalgaduras a passarem nos paralelepípedos de Canelas, os carros de bois a chiar não obstante as 1432[5] posturas municipais contra tal abuso, os rodados de ferro do americano a produzir o seu barulho metálico enquanto "faz" uma curva, os pregões, os pedintes, os sinos dos Congregados e os músicos ambulantes, até mesmo os passarinhos nas copas das árvores da Praça de D. Pedro; vá enfim, num sábado ou domingo à tarde ao Museu Romântico da Macieirinha, sente-se num destes bancos e feche os olhos por alguns segundos. E se após as obras que esta casa está a sofrer os ditos forem colocados de novo no exterior, poderá desfrutar dessa mesma viagem imaginativa incorporando já o som das folhas das árvores do local a murmurar ao sabor do vento, bem como os chilrear dos pássaros que também por ali habitam... E então quem sabe estará, por uns breves instantes, de novo na Praça de D. Pedro!

__________________

1 - Teve ainda os nomes mais efémeros de Praça da Constituição e Praça da República.

2 - Cópia do ainda existente em Lisboa na praça de D. Pedro, que data de 1848. Embora apenas subsistam registos de um desses "tapetes", a verdade é que a praça teve primeiramente um mais simples, em forma de cruz de Santo Inácio, em granito, «com a circuferância calçada a mosaico e os ângulos em vãos do centro feitos em relva».

4 - O meu pensamento foi exatamente este, embora a praça enquanto Nova não tivesse bancos!

5 - Este número é imaginário, bem entendido...

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.