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O PORTO DE OITOCENTOS

O PORTO DE OITOCENTOS

Março 04, 2019

A ponte sem caminho

Hoje trago-vos um pequeno artigo de opinião que na atualidade bem poderia surgir na página da correspondência dos leitores de um qualquer jornal. Só que esta correspondência, por ser mais que centenária, não deixa de ter o seu interesse histórico e mesmo pitoresco. Por ele também se pode avaliar, que são velhas as premissas que vão dar à conclusão de que este país já padecia de certos problemas de organização, compadrios e morosidade crónica... Ressalve-se que o episódio narrado teve lugar durante o inverno, após a ocorrência de uma cheia.

 

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«Quando o bem do público está em oposição com os interesses dos particulares, dita a razão que estes sejam sacrificados; contudo a lei, em matéria de expropriações por utilidade pública, não quis ser desumana, e concede em compensação deste sacrifício uma razoável indemnização; logo é vergonha, é um escândalo público, que as nossas obras fiquem tolhidas e imperfeitas com manifesto incómodo e quiçá prejuízo público por causa dos interesses de alguns particulares.

 

Estas reflexões nos vieram ao espírito ontem, quando estando nós na embocadura da Rua de S. João, e querendo ir a Vila Nova, tivemos de atravessar umas barcaças e estreitas tábuas para chegar às escadas de Cima do Muro para daí seguir à ponte.

 

Veja, Sr. Redactor, se elas não são bem cabidas na obra da ponte pênsil. Porque razão o governo fez o sacrifício de uma ponte de barcas sólida e segura na importância talvez de 30 contos de réis, e do seu rendimento anual, pelo menos de 10 contos, a não ser com o fim de dotar o público com uma ponte, que servisse no tempo das cheias ainda as maiores?

 

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Isto é sem questão: mas o que me parece não menos, é que as contemplações com os interesses particulares de alguém fizeram com que ela em vez de ser colocada no sítio onde a conveniência pública o pedia, lá ficou relegada na extremidade da cidade, distante mil passos do verdadeiro sítio, em uma e outra margem, de sorte que é preciso dizer um caminho inútil de 2000, ou perto, passos. Mas ainda não fica aqui o escândalo, porque ainda até hoje a dita ponte não tem caminho em termos para gente de pé na ocasião das grandes cheias, e nenhuma para animas de transporte, e isto por causa das sobreditas contemplações com os interesses particulares. Até quando durará este estado? Não sei: o que sei é que, já lá vão mais de 12 anos sem que se tenha cuidado em tal caminho, e pode dizer-se que temos ponte e não temos caminho para ela!

 

V. me responderá que se passaram mais de 4000 anos sem ponte pênsil, e que se daqui a um século houver caminho adequado para ela já será um outro progresso! E rápido! E que a lei do bem público só milita quando não fere os interesses particulares, ou este é pobre sem influência».

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J.A. de Oliveira in jornal O comércio de 1855 (futuro O Comércio do Porto).