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O PORTO DE OITOCENTOS

O PORTO DE OITOCENTOS

Março 08, 2019

A cidade do Porto vista por um inglês, em 1813

Hoje, caro leitor, vamos fugir dos jornais. Trago-vos um texto extraído de um volume publicado em 1820 com o título Travels through Portugal and Spain, during the peninsular war, da autoria de William Graham (a viagem teve início em 1812, no pleno da mão de ferro inglesa em Portugal).
 
Trata-se de um bom exemplo de como se pode, a meu ver, guardar uma impressão errada ou pelo menos bastante superficial de uma cidade quando nela nos demoramos apenas alguns dias. Ainda que contenha algumas referências curiosas à índole do portuense e ao aspeto da sua cidade.
 
 
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-- Porto (...) uma cidade que em muito ultrapassa Lisboa e Coimbra no que concerne à beleza. A primeira coisa que impressiona o viajante, é o geral aspeto de limpeza - igualmente a regularidade das casas, e a uniformidade que reina em cada rua. Está situado no Douro, a algumas milhas do mar, e tem uma ponte de barcas que abre no meio, para a passagem até S. João da Pesqueira, Lamego, etc. Os conventos aqui são superiores a qualquer um que até agora vi, e, como habitualmente, ocupam a maior parte da cidade. Do outro lado do rio está uma parte chamada Vila Nova do Porto[1], ou a Cidade Nova, habitada por tanoeiros e ferreiros, que existem em abundância. O Porto é muito grande, e a nossa Companhia Inglesa reside aqui. Eles geralmente compram a vindima[2] um meses antes de ser retirada; fazendo o vinho no local, trazendo-o pelo rio até ao Porto, onde o despacham para o nosso mercado. Em relação ao seu vinho, o sumo da uva só por si não é tão importante como se poderia imaginar, sendo aliás algo insípido. Existe aqui uma rua chamada Rua dos Ingleses, que poderá, talvez, rivalizar com qualquer outra na Europa; as casas com os números 1, 2, 3, compõem o Hotel Inglês[3], que é bastante nobre. O Porto parece-se muito com as cidades na Inglaterra, e um oitavo dos habitantes é de crer serem ingleses - dando a Companhia dos Vinhos emprego muitos deles; e a esta companhia deverá ser imputada a maioria da prosperidade comercial do Porto.
 

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A rua dos ingleses (com a Feitoria Inglesa em primeiro plano) nos finais do século XIX.

 
Em Portugal as Ordens de Santa Cruz e São Francisco aparentam ser as mais ricas. As capelas, no geral, são as mais ornamentadas, e os jardins são dispostos num estilo soberbo. Um dos conventos encontra-se num imenso rochedo perpendicular, no lado sul da cidade, e tem uma aparência verdadeiramente grotesca; eu fui aboletado mesmo por baixo dele. A cidade fica no lado de uma colina, como Lisboa e Coimbra, inclinada para o rio. As ruas são muito boas, com muito boas casas. Há um grande comércio, e a navegação pode vir até à porta dos mercadores com facilidade. As ruas são iluminadas com lampiões; à maneira inglesa, e as casas não se parecem tanto com prisões como as de Lisboa. As grandes barras de ferro nas janelas não estão aqui muito em uso. São construídas com pedra, muito altas, muitas tendo sete andares. Há aqui um excelente mercado de peixe, e um bom local de desembarque, quase por toda a margem norte do rio. Os habitantes são menos reservados do que os do sul, uma vez que as suas relações com os ingleses torna-os familiarizados com as nossas maneiras e costumes, alguns dos quais eles adotaram. É realmente singular que o vinho do Porto seja muito mau aqui - nem é como o vinho que temos em Inglaterra, a companhia inglesa monopoliza todo o melhor para exportação. Adeney e eu refrescamo-nos com uma garrafa na manhã que começamos; mas não era de todo ao nosso gosto.
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1. No original Vila Nuevo de Oporto.
2. No original vintage.
3. O autor referir-se-á provavelmente à Feitoria Inglesa.
 
 
O texto foi traduzido para o português por mim. Ao leitor que tiver curiosidade em conhecer o original em inglês, poderá fazê-lo acedendo a http://purl.pt/17174.