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O PORTO DE OITOCENTOS

O PORTO DE OITOCENTOS

Maio 24, 2019

Os namorados, o jardim de S. Lázaro e as recolhidas

O jardim de S. Lázaro foi, desde a sua criação logo a seguir ao cerco do Porto e até meados da década de 60 do século XIX, o principal local de passeio e confraternização dos burgueses portuenses (depois substituído pelo Jardim da Cordoaria). A partir dessa época, aquele espaço como que desceu de condição, ficando entregue quase em exclusivo ao povo, preferindo os burgueses os mais arejados ares do mar que pela barra chegavam ao antigo monte do Olival. Esta é pelo menos a opinião do celebrado historiador da cidade Artur de Magalhães Basto, num artigo que escreveu para O Tripeiro em 1959. As palavras que abaixo se irão ler são extraídas precisamente desse artigo.

 

*

(...) «Estava-se então em pleno romantismo. Era o tempo do botequim do Guichard, na Praça Nova, frequentado por uma multidão de rapazes aliteratados, apaixonados e desordeiros, entre os quais sobressaía já um que se chamava Camilo Castelo Branco, terror dos burgueses pais de família, dos mercadores da Rua das Hortas, Flores e S. João, dos brasileiros e dos barões. Era o tempo dos boémios incorrigíveis que fizeram andar o burgo num constante reboliço, com as suas aventuras, as suas extravagâncias, as suas ovações calorosas no lírico à Dabedeille e as pateadas formidáveis à Belloni. (...) Era, sobretudo, o tempo em que se amava com convicção, em que por amor se praticavam todas as loucuras.

(...)

As donzelas casadoiras desses tempos deram muito que fazer aos pais. Os raptos, as fugas por escadas de corda ou galgando a custa os muros dos quintais, tornaram-se frequentes. Ao que se deduz da unanimidade dos escritos da época, as meninas portuenses eram uns anjos de beleza, doçura e de graça:

Quem me dera ser do Porto

ou no Porto ter alguém!

Quem me dera ter a fama

que as moças do Porto têm!

 

Quem lhes resistiria?

 

Imagine-se, depois disto, o que seria o Jardim de S. Lázaro, esse jardinzinho hoje tão pacato e abandonado pelas meninas elegantes, mas há cem anos, em certos dias, repleto daquela mocidade explosiva! Quantos suspiros, quantos ais, se misturaram aos aromas das flores, que as brisas docemente arrastavam para longe!

(...)

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O Recolhimento no início do século passado. Com o n.º 1 estão assinaladas as rótulas em forma de persiana e com o n.º 2 as janelas ainda gradeadas.

 

A música tocava alegremente as árias em voga, as mamãs e os papás distraíam-se acompanhando-as com a cabeça ou tamborilando com os dedos na caixa do rapé, e as meninas sentadinhas ali ao lado... lançavam os seus mais lânguidos olhares, às furtadelas, aos famigerados leões que as rondavam à distância.

 

A tal ponto chegou a namoração naquele recinto, que a Misericórdia, administradora do Recolhimento das Orfãs - como é sabido - teve de tomar as suas precauções, tanto mais que o jardim, quase ao nível das janelas do edifício, ficava então muito mais próximo do que atualmente, porque a rua foi depois alargada. Em sessão da Mesa da Irmandade, de 2 de maio do ano de 1849, o mordomo do pelouro falou nestes termos, que parecem dos nossos dias:

- "Em todo o tempo o recato necessariamente foi o principal ponto de disciplina no nosso Colégio, mesmo nessas épocas em que os sentimentos religiosos e o temor do castigo de Deus, ainda faziam conter alguns desvarios da mocidade; hoje, porém, que tristemente observamos a progénie humana corrompida e separada do seu primeiro dever, hoje que, por desgraça nossa vemos a mocidade caída em desmoralização, faltando com o respeito a tudo, e até aos lugares sagrados e a seus próprios pais, casos estes que a nossos olhos aparecem amiudadas vezes por essas ruas, praças e igrejas, não deverá, por consequência, agora mais que nunca, haver as maiores cautelas?"

 

E, referindo-se a uma deliberação da Mesa de 1835, prosseguiu:

- "Não quero criminar a ideia que determinou deitar abaixo as rótulas que evitavam o devassamento do Colégio, e que as meninas fossem patentear-se por três horas às janelas nos dias santificados, porque, enfim, seu autor, como homem sujeito a errar desconhecia naturalmente acontecimentos futuros, e muito mais que o Jardim de S. Lázaro (por aquela época inaugurado) se viria a converter em teatro, etc, em que os gamenhos da época (sic) não fazem mais que desmoralizar meninas O que eu quero - disse em súmula o orador - é que agora se remedeie um mal tão patente e conhecido".

 

E em face disto, e do mais que o zeloso mordomo expôs, a Mesa deliberou ponderosamente - "que em todas as janelas da frente do Recolhimento, entre as mesmas janelas e grade de ferro, e somente na frente da meia vidraça inferior, se mandasse colocar rótulas em forma de persianas, firmes e pintadas de verde, tendo as fasquias a inclinação precisa e suficiente para que de umas às outras fique um raro, ou espaço, que não tolha a vista de dentro para a rua e jardim, mas ao mesmo tempo que não deixe distinguir de fora a pessoa que está à janela".

 

E pronto. Acabava-se com as olhadelas perigosas dos leões, dos gamenhos insuportáveis, como Camilo e outros da sua força! E à cautela, atalhando possíveis sofismas, a Mesa da Misericórdia deliberou ainda:

- "Fica absolutamente proibido a qualquer pessoa do Recolhimento subir às janelas para olhar pelas vidraças superiores".

 

Oh! A sorte que deram os janotas, os dandies, os galãs desse tempo! Até foram para os jornais! Mas tiveram de se conformar. Já todos tinham morrido, já os seus ossos estavam transformados em terracinzanada, quando as rótulas desapareceram de novo do Recolhimento das Orfãs de Nossa Senhora da Esperança. (...)»

*

 

Maio 14, 2019

Entretenimento nas ruas e cafés em 1870

Este blogue pretende centrar-se em textos, revivalistas ou contemporâneos, que nos façam pensar e imaginar como seria o mundo do século XIX. O que abaixo convido o leitor a ler é mais uma janelinha que se nos abre diante dos olhos para tempos idos, que por isso mesmo são recordados com saudade mesmo por quem já não os viveu. Este texto em particular ilustra-nos com o colorido habitual dos exímios colaboradores do jornal O Comérico do Porto (talvez o melhor jornal que circulou na cidade em qualquer tempo) o mundo dos entretenimentos ambulantes que durante muito tempo vaguearam pelas cidades, muitos deles expondo cruamente a miséria do viver dos seus performers.

 

*

 

«Apesar da estação correr pouco favorável para as diversões nas ruas e praças, o Porto está actualmente inçado [sic] de um enxame de arlequins, tocadores ambulantes, e outros indivíduos de igual género, que todos à porfia empregam os melhores meios de arranjar alguns vinténs. O povo reúne-se, gosta, diverte-se e também paga, às vezes. São pois de todos os géneros e classes esses passatempos, verdadeiramente populares, e para enumera-los todos seria necessário dispor de mais espaço do que podemos. No entanto aí vai uma ligeira resenha deles:

 

Principiando pelos arlequins, mencionaremos em primeiro lugar a companhia do Cavalo, como lhe chamam. Compõem esta de dous ginastas, ou o que quer que seja, um dos quais executa jogos malabares e outro dá cabriolas, e faz dançar nos pés uma tranca. Faz parte da companhia um cavalo amestrado, que, sob a indicação do mestre, diz as horas que são e indica a mulher mais bonita do grupo que se forma em torno, o que é sempre uma honra galhofeira para a indicada, que às vezes cora e baixo os olhos, quando o cavalo para defronte dela a fazer-lhe cumprimentos na cabeça. Há grande risota entre os espectadores, algumas mordidelas de beiços de inveja das excluídas e tudo isto acompanhado ao som da orquestra, que se compõem de um cornetim e um tambor.

 

Segue-se outra companhia, composta de dois arlequins e dois garotos, que acarretam, o primeiro um tambor e o outro uma mesa e todos os aprestos precisos para as sortes. Esta companhia nada oferece de notável, senão as figuras, quasi horripilantes, dos dous artistas. Ao vê-los, dir-se-iam mais dous esqueletos movidos por desconhecidas molas, do que seres viventes. Estes desgraçados, para conseguirem fazer alguma cousa, chafurdam-se na lama da rua, e ao levantarem-se, tornam-se ainda mais horrendos pela desordem e hediondez dos vestuários.

 

Vem em seguida a companhia da mulher das forças, de que já tivemos ocasião de falar em tempo; desde então a companhia não sofreu alteração, a não ser uma criança que a mulher das forças traz sempre ao colo, e que parece ser seu filho, companheiro já dos trabalhos dos seus pais, e herdeiro das lantejoulas e farrapos vermelhos dos mesmos, com que um dia se adornará talvez para honrar a arte dos seus progenitores.

 

Sucedem-se uma série de especuladores, entre os quais ocupa o primeiro lugar a dos pássaros sábios.
Este procura sempre pelo teatro das suas exibições as entradas dos mercados, e os lugares de mais trânsito. Os pássaros, que são todos canários, acham-se engaiolados, estando as gaiolas montadas sobre uma tripeça. Próximo da gaiola há uma pequena caixa de folha, cheia de papéis impressos e fechada, contendo, em 4 linhas, as sinas ou a revelação do futuro de qualquer indivíduo. Chega-se, e este é o caso mais ordinário, uma criada de servir, dá 10 reis ao homem, produto quasi sempre da economia que fez nas compras, aquele abre a porta da gaiola, sai um pássaro e com o bico tira um dos papelinhos da caixa de latão, que o homem entrega à criada, dando depois alguns grãos de painço ao sábio passarinho. Esta recompensa, é o segredo do engenho das pequenas aves. A criada, com o papel na mão, como quasi sempre não sabe ler, pede a alguém que lho leia e acha sempre quem se encarregue de lhe explicar as misteriosas palavras do conteúdo no bilhetinho. Feito isto, lá vai, ora risonha, ora triste, conforme a revelação ministrada pelo inocente canarinho. Esta especulação produz sempre bons lucros para os donos dos pássaros, o que quer dizer que há sempre um crescido número de parvos a consultar o oráculo.

 

Ocupa o segundo lugar a especulação dos barquilhos, verdadeiro engodo da rapaziada, que acha meio de arranjar os cinco reis, para os empregar naquela gulodice. O homem dos barquilhos para em qualquer lugar mais concorrido, e põe diante de si uma caixa, que tem na tampa uma espécie de roda da fortuna. O rapaz dá cinco reis, move a roda que faz girar uma pequena esfera; esta vai cair em uma cavidade, e segundo o número que ela tem pintado, ganha outros tantos barquilhos, que ele bem depressa faz chegar ao estômago. Os barquilhos são umas pequenas pastas feitas de massa de obreias [sic] com açúcar. Este petisco é a suprema palavra de pastelaria para o rapazio.

 

Há finalmente os músicos dos cafés, entre os quais merece o primeiro lugar a orquestre do Boca Seca. A orquestra do Boca Seca compõem-se de uma família; pai, mãe e uma filha. Aquele e a filha tocam ambos rebeca, e a mãe viola francesa. Entram todas as noutes nos principais cafés e tocam diversos trechos de óperas, marchas e músicas de dança, algumas pelos papéis que trazem. Chamam-lhe a orquestra do Boca Seca em consequência do regente, que é o chefe da família, estar a cada passo a dizer que tem a boca seca, mesmo depois de beber dez ou quinze, e às vezes mais, copos de cerveja, que os ouvintes lhe oferecem. Torna-se notável este homem senão pelo género musical, pela quantidade de cerveja que bebe em cada noute. Toda a família traja com bastante decência, e como alem disso se extremam do vulgar no que tocam, tem entrada em todos os cafés.

 

Seguem-se ainda dous outros músicos ambulantes espanhóis, pai e filha, que tocam, o primeiro bandolim e a segunda violão. Esta chama-se Manuelita e também canta. Além destes vagueia pela cidade uma multidão de crianças que onde quer improvisam concertos de harpa e rebeca, tormento tão flagelador como o dos realejos».

 

in O Comércio do Porto de 13 de Janeiro de 1870

 

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Originalmente publicado n'A Porta Nobre, no blogspot, em 13.12.2009

Maio 03, 2019

Os bancos da Praça de D. Pedro (um apontamento)

Praça Nova era como se sabe o nome original da atual Praça da Liberdade (que infelizmente a geração mais moderna já vai enfiando no "saco" Aliados). Foi depois elevada à realeza tomando o nome de D. Pedro para finalmente obter o da Liberdade[1]. Nos anos imediatos à guerra civil, estava ela ainda bastante mal tratada com as cicatrizes do uso que lhe fez as tropas de D. Pedro durante o famoso Cerco, sendo pouco mais do que um grande rossio em macadam. Com o passar dos anos foi aformoseada e regulada, vindo a ganhar um lindo tapete de ladrilho preto e branco em 1882[2], formosas árvores que lhe davam sombra e claro: bancos! Sem eles não seria possível com completa serenidade, ao portuense de então, contemplar a beleza daquela praça cuja memória agora imaterial é perpetuada por tantas gravuras e imagens que aos nosso dias chegaram.

 

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i1 a Praça de D. Pedro na década de 80 do século XIX. Repare-se nos bancos de ferro que ali se encontram. Seriam confortáveis, dada a sua construção em ferro?

 

E é naqueles bancos que incide esta pequena, singela e até incompleta publicação (no final direi o porquê deste último adjetivo). Os primeiros foram ali colocados no ano de 1844, sendo totalmente construídos em ferro. Não eram portanto aqueles que se vêm na maioria das fotografias daquela linda praça; muito similares aos que ainda existem nos jardins do antigo Palácio de Cristal (com ripas de madeira presas a suportes metálicos).

 

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i2 Uma outra imagem da mesma época mostrando os bancos que se encontravam em frente ao palacete transfigurado nos Paços do Concelho.

 

No bonito dia de sábado passado visitei o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, da qual não tinha já memória viva no espírito da última vez que lá havia estado. Foi uma muito agradável visita, infelizmente reduzida praticamente apenas ao segundo andar, dado o primeiro não estar para já visitável... Mas no rés-do-chão, onde pouco havia para ver neste momento e após uma breve passagem de olho por gravuras oitocentistas que o milagre da internet tornou acessível a todos a toda a hora, reparei nuns pequenos bancos de jardim em ferro e de motivos simples. Uma luz se acendeu na minha ideia de imediato: os bancos da Praça Nova![4] Com efeito, aqueles bancos são (os?) sobreviventes dos que se encontravam na Praça de D. Pedro, dali retirados nos finais do século XIX !!!

 

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i3 e i4 caríssimos leitores, um banco da Praça de D. Pedro !!!

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A incompletude desta publicação advém tão só de não ter ainda encontrado - e por isso não poder aqui dizer - qual a obra onde colhi a informação da proveniência daqueles bancos que pude observar, cuja memória de imediato me saltou à ideia (fica a promessa, caros leitores,  de atualizar estas breves linhas assim que encontre esse registo). Ainda assim não quis deixar de partilhar o meu espanto e alegria neste blogue inteiramente dedicado ao século XIX portuense.

 

Para quem quiser ter uma experiência mais imersiva no imaginar da Praça de D. Pedro sem o barulho do trânsito automóvel ou mesmo do carro elétrico, ainda assim povoado com muitos outros como por exemplo o constante troc troc dos socos das mulheres, das cavalgaduras a passarem nos paralelepípedos de Canelas, os carros de bois a chiar não obstante as 1432[5] posturas municipais contra tal abuso, os rodados de ferro do americano a produzir o seu barulho metálico enquanto "faz" uma curva, os pregões, os pedintes, os sinos dos Congregados e os músicos ambulantes, até mesmo os passarinhos nas copas das árvores da Praça de D. Pedro; vá enfim, num sábado ou domingo à tarde ao Museu Romântico da Macieirinha, sente-se num destes bancos e feche os olhos por alguns segundos. E se após as obras que esta casa está a sofrer os ditos forem colocados de novo no exterior, poderá desfrutar dessa mesma viagem imaginativa incorporando já o som das folhas das árvores do local a murmurar ao sabor do vento, bem como os chilrear dos pássaros que também por ali habitam... E então quem sabe estará, por uns breves instantes, de novo na Praça de D. Pedro!

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1 - Teve ainda os nomes mais efémeros de Praça da Constituição e Praça da República.

2 - Cópia do ainda existente em Lisboa na praça de D. Pedro, que data de 1848. Embora apenas subsistam registos de um desses "tapetes", a verdade é que a praça teve primeiramente um mais simples, em forma de cruz de Santo Inácio, em granito, «com a circuferância calçada a mosaico e os ângulos em vãos do centro feitos em relva».

4 - O meu pensamento foi exatamente este, embora a praça enquanto Nova não tivesse bancos!

5 - Este número é imaginário, bem entendido...